“Acho que o que Trump quer fazer é refundar, criar uma nova ordem geopolítica do petróleo no mundo.” As palavras de Adriano Pires, especialista do CBIE, revelam que a captura de Maduro vai muito além de uma operação contra um ditador.
A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo: 303 bilhões de barris, equivalente a 17% das reservas globais. Pequim, principal rival geopolítico dos EUA, é hoje destino de 68% das exportações petroleiras venezuelanas. A China concedeu cerca de US$ 50 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo.
Neste quarto artigo da série sobre a Venezuela, vamos desvendar como um país latino-americano em crise se tornou peça central na disputa entre Estados Unidos, China e Rússia pela reconfiguração da ordem mundial — uma guerra fria do século XXI travada com petróleo, sanções e alianças estratégicas.
O Tabuleiro Geopolítico: Três Potências, Um Prêmio
🌍 A Nova Guerra Fria do Petróleo
A crise venezuelana deixou de ser apenas interna ou regional. Petróleo, energia e rivalidades entre grandes potências transformaram o país em uma peça estratégica de alcance global.
Jean Paul Prates, ex-presidente Petrobras: “Estamos falando agora de choques de regiões de influência. Rússia tomando conta do leste europeu, da Ásia central, alguma coisa da África. China, com a Ásia Oriental, o Extremo Oriente e a África big time. E a América Latina sobrou para os Estados Unidos”.
O que está em jogo:
- Segurança energética do século XXI
- Alianças estratégicas Sul Global
- Influência regional nas Américas
- Reordenamento do poder global
🎯 Por Que Venezuela É Tão Estratégica
A Venezuela tornou-se um ponto de convergência de interesses globais: segurança energética para a China, projeção de poder para a Rússia e reafirmação de influência regional para os Estados Unidos.
Convergência de fatores:
- Maiores reservas de petróleo do planeta
- Localização: Quintal dos EUA (Doutrina Monroe)
- Aliado de China, Rússia, Irã, Cuba
- Recursos estratégicos: Ouro, coltã, diamantes
- Rota migratória: 8 milhões impactando região
Estados Unidos: Reconquistando o Quintal
🇺🇸 A “Doutrina Donroe” de Trump
O presidente Donald Trump confirmou a operação e apresentou o que chamou de “Doutrina Donroe”, em referência direta à Doutrina Monroe (1823: “América para os americanos”).
Objetivos estratégicos dos EUA:
- Recuperar controle sobre petróleo venezuelano
- Expulsar influência chinesa e russa das Américas
- Combater narcotráfico (Cártel de los Soles)
- Conter fluxo migratório (8 milhões refugiados)
- Reafirmar hegemonia regional
⛽ Petróleo Venezuelano: Por Que EUA Precisam Dele
O interesse americano também é impulsionado pela presença crescente de China e Rússia na Venezuela.
Razões estratégicas:
1. Segurança Energética
- 303 bilhões barris: 17% das reservas globais
- Proximidade geográfica: Mais perto que Oriente Médio
- Rotas seguras: Sem estreitos vulneráveis (Ormuz, Malaca)
2. Refinarias Especializadas
- Petróleo pesado venezuelano: Ideal para refinarias Golfo do México
- Infraestrutura: Décadas de integração EUA-Venezuela
- Eficiência: Refinarias americanas projetadas para esse tipo de óleo
3. Controle de Preços Globais
- Reduzir impactos de crises internacionais
- Manter influência sobre mercado global
- Evitar dependência de adversários (Arábia, Rússia)
Trump declarou que pretende “recuperar” ativos e abrir o setor a empresas americanas após décadas de nacionalização.
💰 Histórico: Da Parceria ao Confronto
Era pré-Chávez (até 1998):
- EUA: Maior comprador de petróleo venezuelano
- Empresas americanas: Operando livremente
- Relação: Cooperativa e lucrativa
Era Chávez (1999-2013):
- 2007: Nacionalização forçada
- ExxonMobil, ConocoPhillips: Expulsas
- Chavez: Aproximação com Cuba, Rússia, China, Irã
Era Maduro (2013-2025):
- 2014: Primeiras sanções americanas
- 2019: Reconhecimento de Guaidó (60+ países)
- 2020: Primeiro mandado prisão Maduro (US$ 15 mi recompensa)
- 2025: Recompensa US$ 50 milhões, captura efetivada
China: O Maior Parceiro Comercial
🇨🇳 Pequim Como Substituto de Washington
Antes das sanções impostas em 2019, os americanos eram os maiores compradores do petróleo venezuelano. Após o bloqueio, a China assumiu papel dominante.
Números da relação China-Venezuela:
- US$ 50 bilhões: Empréstimos chineses garantidos por petróleo
- 68% das exportações petroleiras venezuelanas (2023)
- Principal destino: Petróleo paga dívidas históricas
- Win-win: China garante energia, Venezuela escapa sanções
💼 Investimentos Estratégicos Chineses
Setores com presença chinesa:
- Petróleo: Empresas estatais operando campos
- Mineração: Ouro, coltã, bauxita
- Infraestrutura: Portos, estradas, energia
- Tecnologia: 5G, vigilância, telecomunicações
- Agricultura: Produção de alimentos
🎯 Objetivos Geopolíticos de Pequim
Por que China investe na Venezuela:
1. Segurança Energética
- Diversificação: Reduzir dependência Oriente Médio
- Acesso garantido: Contratos de longo prazo
- Rota alternativa: Evita controle americano rotas marítimas
2. Influência nas Américas
- Ponto de apoio: Na esfera de influência tradicional dos EUA
- Belt and Road: Expansão para América Latina
- Soft power: Modelo alternativo ao americano
3. Minerais Estratégicos
- Terras raras: Essenciais para tecnologia
- Ouro: Reservas internacionais chinesas
- Coltã: Fundamental para eletrônicos
⚠️ “Xeque-Mate na China”
Adriano Pires: Essa movimentação representa um “xeque-mate” na China, que vinha aumentando sua participação como importadora de petróleo venezuelano.
Impacto da captura Maduro:
- Perda acesso: 68% das importações de petróleo venezuelano
- US$ 50 bilhões: Em empréstimos sob risco
- Alternativa: China pode aumentar importações do Brasil
- Estratégia: Pequim terá que reagir diplomaticamente
Rússia: Projeção de Poder no Hemisfério Ocidental
🇷🇺 Moscou na América Latina
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia denunciou a intervenção americana na Venezuela como “um ato de agressão profundamente preocupante e condenável”. Moscou considera a Venezuela um de seus principais aliados entre os países do Sul Global.
Relação estratégica Rússia-Venezuela:
- Armamento: Bilhões em equipamento militar vendido
- Apoio diplomático: Veto no Conselho Segurança ONU
- Cooperação energética: Rosneft operava na Venezuela
- Assessoria militar: Treinamento forças venezuelanas
⚔️ Impacto na Guerra da Ucrânia
A intervenção dos EUA na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, enfraquece a Rússia politicamente e economicamente na América Latina.
Como Venezuela ajudava Rússia:
1. Apoio Diplomático
- Abstenções na ONU: Não condenação invasão Ucrânia
- Voto alinhado: Com Rússia em organismos internacionais
- Retórica: Defesa pública de Moscou
2. Controle de Preços Petróleo
- Coordenação: Abrir/fechar torneiras conforme interesse russo
- Preços elevados: Sustentam esforço guerra Ucrânia
- Sanções: Venezuela burlava para ajudar Rússia
3. Projeção de Poder
- Base militar: Rússia cogitou instalar na Venezuela
- Presença: Hemisfério Ocidental (quintal dos EUA)
- Mensagem: “Podemos estar em qualquer lugar”
💭 O Paradoxo Geopolítico
“Donald Trump fez na Venezuela o que Vladimir Putin queria fazer em 2022 na Ucrânia: mudar o chefe de Estado, provavelmente eliminá-lo e estabelecer em Kiev um governo favorável a Moscou”, acredita especialista francês Sylvain Bret.
Ironia geopolítica:
- Putin tentou na Ucrânia: Falhou
- Trump fez na Venezuela: Sucesso
- Zelensky ironizou: Tratamento de “ditadores”
- Precedente: Perigoso para ordem internacional
Cuba: O Aliado Ideológico em Crise
🇨🇺 Havana Perde Sustento
Relação histórica Cuba-Venezuela:
- Troca: Petróleo venezuelano por médicos/professores cubanos
- Assessoria: Inteligência, segurança, controle social
- Ideologia: Aliança anti-imperialista
- Dependência: Cuba depende vitalmente de petróleo venezuelano
💀 Baixas na Operação Americana
Cuba afirmou que 32 de seus militares e agentes de inteligência morreram durante a incursão americana em Caracas.
Revelações importantes:
- Presença militar: Cuba tinha dezenas de agentes em Caracas
- Proteção: Ajudavam proteger Maduro
- Baixas: Confirmam nível integração Cuba-Venezuela
- Futuro: Cuba perde aliado vital
Brasil: Dilema Entre Princípios e Pragmatismo
🇧🇷 Posição Ambígua de Lula
Lula faz alerta global após ação militar na Venezuela. Governo brasileiro convoca reunião de emergência para avaliar crise.
Dilema brasileiro:
- Princípios: Não aceita intervenções unilaterais
- Soberania: Defende autodeterminação latino-americana
- Mas: Reconhece crimes e autoritarismo de Maduro
- Realismo: 510 mil refugiados venezuelanos no Brasil
💼 Oportunidades Econômicas
Com a China possivelmente perdendo espaço na Venezuela, o país asiático poderia aumentar suas importações de petróleo brasileiro, que já é seu principal fornecedor.
Vantagens do Brasil:
- Petróleo superior: “Muito melhor que venezuelano, é leve”
- Produção crescente: Próximo de 4 milhões barris/dia
- Projeção 2027: 5 milhões barris/dia
- Protagonismo: Brasil ganha espaço internacional
Adriano Pires: “O Brasil vai ter mais protagonismo na cena internacional de petróleo”.
⚖️ Impacto Regional
Brasil como líder regional:
- Operação Acolhida: Modelo de acolhimento refugiados
- Diplomacia: Tentativas mediação (fracassadas)
- BRICS: Tensão com China/Rússia vs pragmatismo com EUA
- Mercosul: Venezuela suspensa desde 2016
Impactos no Mercado Global de Petróleo
📊 Prêmio Geopolítico nos Preços
A escalada de tensões entre a Venezuela e os Estados Unidos volta a colocar o petróleo no centro da análise geopolítica global.
Como funciona:
- Incerteza: Eleva percepção de risco
- Especulação: Mercados precificam possíveis interrupções
- Curto prazo: Movimento rápido de preços
- “Prêmio geopolítico”: US$ 5-10 adicionais por barril
⚖️ Impacto Limitado na Oferta Real
Embora a Venezuela detenha as maiores reservas provadas do mundo, sua produção segue muito aquém do potencial histórico, limitada por anos de sanções, subinvestimento e deterioração da infraestrutura.
Produção atual vs potencial:
- Atual: 800 mil – 1,1 milhão barris/dia
- Pico histórico: 3+ milhões barris/dia (era pré-Chávez)
- Impacto: Limitado no curto prazo
- Potencial: Gigantesco no médio-longo prazo
🔮 Cenários Futuros
Cenário 1: Reabertura ao Capital Estrangeiro
- Trump promete: Abrir setor a empresas americanas
- Investimento: Bilhões necessários
- Prazo: 5-10 anos para recuperar produção
- Impacto: Pressão baixista preços globais
Cenário 2: Prolongamento da Instabilidade
- Guerra civil: Produção cai ainda mais
- Incerteza: Prêmio geopolítico permanente
- Impacto: Volatilidade extrema
Cenário 3: Acordo China-EUA
- Cooperação: Exploração conjunta (improvável)
- Pragmatismo: Ambos precisam energia
- Impacto: Estabilização preços
Conselho de Segurança da ONU: Arena do Embate
🌐 Reações Internacionais Divididas
A ofensiva gerou consternação global. O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas deve discutir a legalidade e as implicações da captura de um chefe de Estado estrangeiro.
Posições no Conselho:
Condenaram a ação:
- China: “Grave violação da Carta ONU, ameaça paz AL”
- Rússia: “Ato agressão profundamente condenável”
- Irã: “Imperialismo americano”
Apoiaram tacitamente:
- Reino Unido: Silêncio calculado
- França: Defesa “direitos humanos” sem condenar EUA
Posição neutra:
- Brasil: Crítica intervenção mas não propõe sanções
- México: Preocupação com precedente
⚖️ Precedente Perigoso
Legalidade internacional:
- Violação: Soberania de Estado-membro ONU
- Precedente: Captura de chefe de Estado por potência estrangeira
- Consequências: Enfraquece sistema multilateral
- Comparação: Invasão Panamá 1989 (Manuel Noriega)
América Latina: Região em Xeque
🌎 Divisão Ideológica Regional
Apoiaram ou aceitaram captura:
- Argentina (Milei): Apoio entusiástico
- Uruguai, Paraguai: Silêncio favorável
- Chile: Crítica Maduro, mas não intervenção
- Equador: Posição pragmática
Criticaram ação americana:
- Colômbia (Petro): Denúncia veemente
- México: Preocupação com soberania
- Bolívia: Solidariedade a Venezuela
- Nicarágua: Condenação radical
🚨 Advertências de Trump
Trump também fez advertências a Colômbia, México e Cuba, sugerindo que outros países poderiam ser alvo de ações semelhantes.
Países na mira:
- Colômbia: Petro apoia Maduro
- México: Fronteira, migração, fentanil
- Cuba: Comunismo no quintal
- Nicarágua: Daniel Ortega
Mensagem: “Doutrina Donroe” não se limita à Venezuela.
Implicações Para a Ordem Mundial
🔄 Nova Guerra Fria Multipolar
Diferença da Guerra Fria original:
- Antes: EUA vs URSS (bipolar)
- Agora: EUA vs China vs Rússia (multipolar)
- Arena: Sul Global como campo de disputa
- Ferramentas: Economia, energia, tecnologia (não apenas militar)
🎭 Fragmentação Geopolítica
Em momentos de tensão global elevada, qualquer sinal de ruptura adicional — ainda que em um produtor hoje marginal — tende a ser interpretado como parte de um quadro mais sistêmico de fragmentação política e energética.
Blocos emergentes:
- BRICS+: China, Rússia liderando Sul Global
- Ocidente: EUA, UE, aliados tradicionais
- Não-alinhados: Tentando navegar entre blocos
- América Latina: Dividida ideologicamente
⚠️ Retorno das Intervenções Unilaterais
Se estivermos voltando ao tempo dos quintais onde superpotências têm o direito de agir como bem entenderem, o mundo está ainda mais inseguro.
Precedentes perigosos:
- Captura Maduro: Sem aprovação ONU
- Violação soberania: Normalizada
- Força bruta: Substitui diplomacia
- Próximos alvos: Incertos mas possíveis
Conclusão: Venezuela Como Microcosmo da Disputa Global
A Venezuela deixou de ser apenas um problema latino-americano para se tornar reflexo claro das tensões do novo cenário mundial.
O que está realmente em jogo:
- 303 bilhões barris de petróleo (17% reservas globais)
- Zona de influência: América Latina entre EUA e China/Rússia
- Ordem internacional: Multilateral vs unilateral
- Modelo político: Democracia vs autoritarismo
Jean Paul Prates resumiu bem: “Rússia tomando Leste Europa e Ásia Central, China dominando Ásia e África, e América Latina sobrou para os EUA.”
A captura de Maduro marca um ponto de inflexão: O início de uma reordenação geopolítica global onde petróleo, poder e influência redesenham alianças que definirão o século XXI.
Adriano Pires sobre Trump: “O que ele quer fazer é refundar, criar uma nova ordem geopolítica do petróleo no mundo” — um xeque-mate simultâneo na China, na OPEP e na Rússia.
No artigo final desta série, vamos explorar “Pós-Maduro: Cenários e Desafios para Reconstruir a Venezuela”, analisando quem governará o país agora, os desafios da reconstrução e se a Venezuela poderá um dia recuperar o que perdeu.
Leia os outros artigos da série:
- Artigo 1: Captura de Maduro: O Fim de 12 Anos de Ditadura
- Artigo 2: Venezuela em Números: A Pior Crise Econômica em Tempos de Paz
- Artigo 3: Crise Humanitária: 8 Milhões de Refugiados e o Êxodo Venezuelano ← Anterior
- Artigo 5: Pós-Maduro: Cenários e Desafios para Reconstruir a Venezuela → Próximo (FINAL)
Série Completa:
📌 Artigo 1: Captura de Maduro: O Fim de 12 Anos de Ditadura
📌 Artigo 2: Venezuela em Números: A Pior Crise Econômica em Tempos de Paz
📌 Artigo 3: Crise Humanitária: 8 Milhões de Refugiados e o Êxodo Venezuelano
📌 Artigo 4: Impactos Geopolíticos: Como a Venezuela Afeta o Mundo ✅ VOCÊ ESTÁ AQUI
📌 Artigo 5: Pós-Maduro: Cenários e Desafios para Reconstruir a Venezuela

